terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A Pedra Coberta

Finalmente o metrô está chegando à Ipanema. Na verdade ainda falta 1 ano para começar a funcionar, mas está chegando. Sei que o túnel, pelo menos, já está aqui em baixo – passei muitos dias não só ouvindo os estrondos das explosões como, literalmente, sentindo a terra tremer.
Faz parte da obra do metrô um elevador que suba até o Cantagalo – comunidade nossa vizinha. Tem tempo que vejo os operários pendurados em cabos preparando a pedra do morro para construção do elevador. Mas que angústia que tem me dado ultimamente.
Todo dia chego ao trabalho pela rua Teixeira de Melo e deparo-me com o morro, que embora seja cheio de entulho em sua base, era até agradável pela presença de árvores. Mas agora elas, as poucas que ainda existiam, foram embora. E o que se encontra no lugar é uma grande cobertura de cimento.
Não tenho dúvidas de que esse elevador facilitará a vida de muita gente. Recentemente desci o Cantagalo e quase morri, passei dias com a perna dolorida (desci a altura equivalente a 33 andares), imagino o que não seja ter que subir e descer todos os dias.
Mas essa massa de cimento que cobre o morro me dá uma angústia, uma asfixia. Porque antes, ali, havia vegetação, e agora está completamente vedado, sem espaço para terra respirar. Parece até maluquice quando penso no que estou dizendo. Acho até que seja mesmo. Mas às vezes tenho a sensação que estamos sento soterrados de cimento e concreto na cidade. Aqui, na zona sul, ainda temos o alívio da praia, de poder olhar para a imensidão sem fim do mar e saber que há muito espaço para respirar.
O problema não é simplesmente morar em cidade grande, é morar nesta cidade grande, sem ordem alguma, sem planejamento, na qual as construções vão surgindo onde bem entendem, sem prever o espaço dos transeuntes. E eu adoro dar uma de transeunte e andar pelas ruas. (Confesso que muitas vezes ando com medo dos assaltos)
Os últimos acontecimentos em Santa Carina, Rio e Espírito Santo têm me lembrado muito o que aconteceu nos EUA. Na verdade, é tudo muito parecido. O mais chocante não é a força da natureza, o volume das chuvas. Isso já conhecemos, já sabemos e previmos. O impressionante é o descaso dos responsáveis, que deveriam ter feitos obras e removido a população. É a política que tem que mudar, aumentando o planejamento urbano para que áreas verdes façam cada vez mais parte da cidade, para que o sistema de escoamento das águas da chuva seja sempre eficiente, educando a população para que ela não construa suas casas em locais de risco iminente e não jogue lixo nas ruas entupindo os bueiros e aumentando o risco de doenças.
São tantas coisas que são deixadas de lado. São tantos os abandonos que sofremos.
Sei que todo dia que olho para pedra coberta me dá uma sensação como se respirar estivesse cada vez mais difícil...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O começo de Maria

Em homenagem ao futuro blog da Aline. Acho que eu fugi do tema. Não foi início, foi começo. Mas talvez eu continue depois e fale também sobre o início... beijocas

Maria gostava da vida que levava. Estudava de manhã, fazia faculdade de letras, tinha bons amigos, bons professores. À tarde Maria dava aulas particulares, sobretudo de português, para meninos e meninas cursando o ensino fundamental. Ela ainda não tinha se acostumado com essa expressão: ensino fundamental. Ao invés de melhorar a qualidade do ensino oferecido no país, o que mais sabe fazer o MEC é mudar os nomes. O resultado, a conversa entre pais, filhos, avós e netos estava ficando cada vez mais difícil.
Mas apesar de gostar de sua vida, Maria não se sentia satisfeita. Era como se ainda faltasse tanta coisa a ser feita. Mesmo que já tivesse revisado toda a matéria dada na faculdade, ou preparado as aulas de seus alunos, ou ainda lavado a louça.
Resolveu Maria que leria mais. Sairia todos os dias, sentaria na praça e leria os mais diversos romances escritos pelo mundo. Fez-lhe muito bem, Maria via crianças que brincavam nos balanços, cachorros que corriam atrás de pombos, ou ainda casais apaixonados, enquanto lia seu livro, sentada em um banco sob uma árvore.
Mas ainda assim, Maria era sempre invadida por uma ansiedade de que havia mais coisas a serem feitas na vida. Por isso entrou no curso de línguas. Resolveu falar alemão. Devia haver muita coisa a ser dita em alemão, que foi a língua mãe de tantos filósofos. Mas ainda assim, Maria não estava em paz. Sabia que havia muito mais.
No curso Maria conheceu uma moça que fazia cerâmica nos fins de semana, e que garantiu que com uma produção manual, de pegar os barros com as próprias mão e transformá-lo, dar-lhe forma, Maria encontraria sua paz. Por isso, Maria passou seus sábados no ateliê. Sentiu um prazer imenso. Fazia bazares para expor suas obras.
Mas ainda não era isso. Ainda faltava alguma coisa. Foi quando um de seus alunos contou que os pais faziam caminhadas uma vez ao mês, em noite de lua cheia. Que o próprio aluno já tinha ido algumas vezes e que eram fantásticas, sem lanterna enchergava-se tudo.
Maria, então, juntou-se ao grupo. Na lua cheia, lá estava Maria com seus tênnis de caminhada, sua garrafa d’água, sua disposição de ver a beleza da noite. Dormia muito melhor depois desses passeios. Mas ainda não estava satisfeita.
Por recomendações, Maria começou a fazer aulas de dança, um curso para iniciação na escrita, lia histórias e contos em um asilo, viajava para lugares novos, conhecia pessoas diferentes, comia sempre comidas novos, resolveu fazer aulas de culinária, saltou de asa delta.
Mas o que ela tinha começado a perceber é que entre tantas coisas para fazer na vida o melhor era começar. Começar de tudo, aprender um pouco de tudo, nunca deixar de aprender. E é por isso que Maria, de tempos em tempos, inventa uma novidade para começar.