Li no jornal de hoje que o governador do Rio deseja instalar aparelhos de ar-condicionado em 1.500 escolas da rede estadual, segundo ele serão 19.000 salas de aulas que contarão com o equipamento já em 2009.
Já estudei no fundão durante o verão, em salas que não têm nem 1 ventilador. Sei que o calor do Rio beira o insuportável no verão e como é refrescante ficar em um lugar refrigerado. Chega até a ser um alívio quando encontramos um ar-condicionado, nem que seja só por alguns minutos.
Apoio a iniciativa de instalar o equipamentos em todas as salas, e ainda de estender a iniciativa para as redes municipais e federais. Mas cada coisa tem seu tempo.
A situação do ensino público é vergonhosa. E os motivos não são poucos. Enumerando alguns temos:
1) O salário-vergonha dos nossos professores: ser professor já foi um título de prestígio, reconhecimento do saber, profissão de quem não só procura conhecer cada vez mais como passar o conhecimento adiante, dividindo-o com seus alunos. Mas no estado nossos professores ganham misérias que muitas vezes os obrigam a terem diversos empregos, de forma a gerar uma renda digna.
2) A precariedade das instalações: os prédios das escolas são completamente abandonados, com paredes descascadas, pichadas e ameaçadas por infiltrações. As salas de aulas muitas vezes não possuem cadeiras ou carteiras para todos os alunos, material que com o passar do tempo vai se desgastando sem ser substituído pelo estado. Já soube de escolas que para poderem pintar suas paredes tiveram que desenvolver táticas diversas de arrecadação de donativos, para compra de tintas e rolos, e contar com mutirões de alunos, professores e da própria comunidade. Ato que seria bonito, representado a união da sociedade, se esta não estivesse suprindo uma negligencia do estado a quem pagamos altíssimos valores para efetuar esse trabalho.
3) A inexistência de bibliotecas: boa parte do aprendizado dos alunos parte dos trabalhos e das pesquisas que devem ser feitos. Por isso a importância de boas bibliotecas nas escolas, com livros didáticos e literaturas. Quando muito, encontramos um centena de livros nas bibliotecas escolares, com exemplares com mais de 20 anos, desatualizados, em estados decrépitos e sem organização para facilitar o acesso.
4) Falta de comida: ficou conhecido o caso do ex-morador de rua Ubiratan Gomes da Silva que recentemente passou em um concurso público para o Banco do Brasil. Uma das declarações impressionantes feitas por ele foi o de der-se matriculado em uma escola pois passava dias sem comer e sabia que na escola eles davam comida aos alunos matriculados. São muitos em situação de miséria que não têm dinheiro para comprar comida diariamente, muito menos lanches para fazer na rua, e essas pessoas aproveitam a escola para fazer a alimentação diária. Já soube casos de mães que pediam a transferência de escola (na rede estadual) porque a escola dava somente biscoitos na hora do lanche, sendo assim as filhas passavam fome durante o dia. A ciência já provou que as pessoas rendem mais quando são bem alimentadas.
5) A falta de segurança das escolas: falar em falta de segurança já virou lugar-comum no Rio, está em todo lugar e todos estão a falar. Está também dentro das escolas, com alunos que ameaçam os professores - por notas melhores, para não denunciar um crime, para não sofrer punições disciplinares-, com alunos que ameaçam alunos – por brigas de ciúmes ou motivos diversos- ou ainda traficantes e meliantes que usam as escolas como armazém de seus artefatos ilegais.
6) A falta de segurança fora das escolas: há uma divisão de atribuições entre o estado e o município, em que o último cuida do ensino fundamental ministrado no período diurno, enquanto o estado é responsável pelo ensino médio que fica no período noturno, pois costuma utilizar a estrutura do município. O que quer dizer que a maioria das pessoas que vai cursar o ensino médio público é obrigada a estudar à noite, período no qual é oferecida a maioria das vagas. Mas, será que você deixaria seu filho de 15 anos estudar à noite, e voltar para casa sozinho depois das dez? Considerando que, por falta de um sistema eficiente, muitos dos alunos acabam matriculados em escolas longe de suas casas, é grande o número de pais que acabam pedindo que os filhos atrasem os estudos até conseguir (em algum ano letivo) uma vaga que não ponha tanto em risco as suas vidas.
É bom saber que temos um governador preocupado com o ensino no estado, mas é preocupante ver quais são suas prioridades. Com tantos problemas, será que realmente está na hora de se preocupar com a instalação de aparelhos de ar-condicionado nas escolas? E quem garante que não teremos diversos roubos mensais desses equipamentos? Dar conforto só deve ser prioridade quando houver, no mínimo, uma estrutura.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
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